Helicoverpa armigera

INTRODUÇÃO

Helicoverpa armigera é uma espécie de lagarta identificada recentemente no Brasil, que tem causado perdas econômicas significativas aos sistemas de produção, estimando-se um prejuízo nas lavouras do país de mais de R$ 1,4 bilhão.

Trata-se de uma praga muito severa que ataca principalmente as lavouras de milho, soja e algodão. Além dessas culturas, foi também identificada em tomate, pimentão, feijão comum, sorgo, caupi, milheto, café e citros, dentre outras plantas.

A identificação da lagarta Helicoverpa armigera  é complexa, sendo quase impossível identificá-la no campo e separá-la da Helicoverpa zea. Apenas exames laboratoriais têm condições de diferenciá-las.

lagarta

O crescimento populacional das lagartas do gênero Helicoverpa foi ocasionado pelo desequilíbrio do agroecossistema que provocaram as práticas de cultivo inadequadas, caracterizadas pelo plantio sucessivo de espécies vegetais hospedeiras em áreas muito extensas e contíguas associadas a um manejo inapropriado dos agrotóxicos. Essa situação de desequilíbrio criou resistência aos defensivos químicos e eliminou os inimigos naturais, tornando-se cada vez mais difícil e custoso o controle da praga.

É, portanto, necessário restabelecer o equilíbrio dos sistemas de produção agrícola, já que nenhum método de controle é efetivo ao longo prazo se não estiver acompanhado de práticas do manejo adequadas.

 CONHECENDO A PRAGA

[blockquote]H. armigera possui grande capacidade de dispersão (os adultos podem migrar uma distância de até 1.000 km) apresenta alta capacidade de sobrevivência em condições ambientais adversas, tais como excesso de calor, frio ou seca. Associado a isso, é considerada uma espécie altamente polífaga, ou seja, que apresenta a capacidade de se desenvolver em ampla gama de plantas hospedeiras. Suas larvas têm sido registradas se alimentando e/ou causando danos em mais de 100 espécies de plantas, sejam elas cultivadas ou não.

H. armigera é um inseto de metamorfose completa, passando no seu desenvolvimento biológico pelas fases de ovo, lagarta, pré-pupa, pupa e adulta. O ciclo de vida do inseto é em torno de um mês, o que permite a existência de várias gerações anuais e contínuas especialmente nas áreas mais quentes.

As fases de seu desenvolvimento são:[/blockquote]

[tabs tab1=”Ovo” tab2=”Lagarta” tab3=”Pré-pupa” tab4=”Pupa” tab5=”Mariposa“] [tab1]

Ovo de Helicoverpa armigera
Ovos de Helicoverpa armigera.
Foto: Bayer CropScience

Os ovos apresentam nervuras longitudinais por toda a superfície exceto na porção apical e tem um comprimento entre 0,42 mm e 0,60 mm e uma largura entre 0,40mm a 0,55 mm. São de coloração branco-amarelada com aspecto brilhante tornando-se marrom-escuro próximo do momento de eclosão da larva, durando o período de incubação em média 3,3 dias.

A oviposição é normalmente realizada durante a noite, colocando o inseto seus ovos, de forma isolada ou em pequenos agrupamentos, na face superior das folhas ou sobre os talos, flores, frutos e brotações terminais.[/tab1]

[tab2]

Este período larval é completado com o desenvolvimento de cinco ou seis distintos instares e pode durar de 2 a 3 semanas, dependendo das condições climáticas. 

São detalhes característicos da lagarta a sua cápsula cefálica de cor parda clara, linhas finas brancas laterais e a presença de pelos. Outra característica observada é que quando perturbada, apresenta comportamento peculiar, encurvando a cápsula cefálica até o primeiro par de falsas pernas, e assim permanecendo por algum tempo.

Lagartas pequenas
Lagartas pequenas de Helicoverpa armigera

Os primeiros instares larvais apresenta coloração variando de branco-amarelada a marrom-avermelhada e cápsula cefálica entre marrom-escuro a preto, alimentam-se inicialmente das partes mais tenras das plantas.

Variação de cores das lagartas
A cor e a forma dos últimos instares podem variar muito

À medida que as larvas crescem, adquirem diferentes colorações variando do amarelo-palha ao verde, apresentando listras de coloração marrom lateralmente no tórax, abdômen e na cabeça, podendo o tipo de alimentação utilizado pela lagarta influenciar na sua coloração.

A partir do quarto instar, as lagartas apresentam, no primeiro segmento abdominal, o formato de “sela”, devido à presença de tubérculos abdominais escuros e visíveis.

presença de tubérculos escuros na lagarta
Desenho esquemático ilustrando a presença de tubérculos escuros no primeiro e segundo segmento abdominal de Helicoverpa armigera, caracterizando o formato de uma sela.

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A fase de pré-pupa compreende o período entre o momento em que a lagarta cessa a sua alimentação, até a fase de pupa.

[/tab3] [tab4]

Este estágio dura entre 10 a 14 dias, ocorrendo o desenvolvimento pupal no solo.  A pupa apresenta coloração marrom-mógno e superfície arredondada nas partes terminais.

Características da lagarta no estágio pupal
Pupa de Helicoverpa armigera

 [/tab4] [tab5]

O adulto da lagarta é uma mariposa com cerca de 40 mm de envergadura. As fêmeas apresentam longevidade média de 11,7 dias e tem as asas dianteiras amareladas. Os machos apresentam longevidade média de 9,2 dias. Suas asas são cinza-esverdeadas com uma banda ligeiramente mais escura no terço distal e uma pequena mancha escurecida no centro da asa, em formato de rim. As asas posteriores dos machos e das fêmeas são mais claras, apresentando uma borda marrom na sua extremidade apical.

Machos e fêmeas Helicoverpa armigera
Machos e fêmeas Helicoverpa armigera

 [/tab5] [/tabs]

 DANOS CAUSADOS 

As lagartas de H. armigera podem se alimentar tanto dos órgãos vegetativos como reprodutivos das plantas, mas tem preferência pelas estruturas reprodutivas como botões florais, frutos, maçãs, espigas e inflorescências, causando deformações ou podridões nestas estruturas ou até mesmo a queda das mesmas.

Na cultura da soja, as larvas de H. armigera podem atacar as folhas, mas tem preferência pelas vagens, sejam elas em desenvolvimento ou já completamente formadas.

danos causados pela lagarta
Danos causados pela lagarta Helicoverpa armigera

Na cultura do milho, ao eclodir, as larvas consomem os grãos em desenvolvimento e além deste dano direto é comum ocorrer infecções bacterianas secundárias. As larvas também podem se alimentar das folhas do cartucho, das folhas mais desenvolvidas e do pendão.

 MÉTODOS DE CONTROLE

Como falamos anteriormente, o desequilíbrio do agro ecossistema, devido à utilização de cultivares transgênicos – alguns com resistência a herbicidas -, o uso de sementes não certificadas por alguns produtores e a implantação da “ponte verde” (uma seqüência ininterrupta de lavouras que beneficia pragas como a Helicoverpa armigera) tem contribuído ao surgimento de pragas e doenças anteriormente reconhecidas como secundárias, ou ainda pragas restritas a uma ou outra cultura que passam a atacar todas as demais culturas. Os agentes de competição interespecífica (pragas, doenças, ervas daninhas) têm sido controlados com agrotóxicos, muitas vezes de forma recorrente e ineficaz, com pulverizações sem rigor técnico e sem o devido monitoramento das pragas.

[toggle title=”Controle cultural”]

O controle cultural consiste na manipulação do ambiente da cultura ou do solo, de maneira a torná-lo desfavorável para a praga que se deseja manejar e favorável para os seus inimigos naturais.

  • Seguir um calendário de plantio com um período curto.  O escalonamento de plantio faz com que a lagarta tenha acesso ao alimento por muito mais tempo com plantas em diferentes estágios de crescimento.
  • Utilização da rotação de culturas e a destruição de plantas vivas voluntárias.
  • A utilização de armadilhas, iscas e outros métodos de controle físico;
  • Eliminação eficiente dos restos culturais para evitar que o inseto tenha alimento e permaneça no campo.
  • O revolvimento do solo, a fim de eliminar as pupas.
  • O monitoramento contínuo da praga.

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[toggle title=”Sistema Push and Pull”]

É uma estratégia de controle cultural de pragas, baseada na manipulação comportamental da praga através da implementação de técnicas que repelem (Push) ou atraem (Pull) a mesma. O sistema push and  pull é constituído basicamente de duas culturas, sendo a cultura principal, a qual se deseja  proteger contra a praga, e a outra,  cultura armadilha, para  onde a praga deverá ser atraída e, posteriormente,  controlada.

A forma de manejo é a seguinte:

[blockquote]

  • Temos uma cultura que queremos proteger, por exemplo, soja, e uma cultura que vai trabalhar como armadilha, por exemplo, guandu, cultura também hospedeira da Helicoverpa.
  • Plantamos a cultura armadilha de guandu nas áreas adjacentes ao algodoeiro.
  • Pulverizamos  azadiractina (óleo de neem) sobre o algodoeiro e atraente (açúcar ou feromônio de agregação de H. armigera) sobre as plantas de guandu.
  • Os adultos dessa praga evitarão ovipositar no algodoeiro (efeito push) e intensificarão a oviposição nas plantas de guandu (efeito pull).
  • As lagartas que estiverem presentes no algodoeiro terão dificuldade de se alimentar nesta cultura devido à ação do óleo de neem (efeito push), mas se alimentarão normalmente no guandu (efeito pull).
  • Controlamos as lagartas de H. armigera na cultura armadilha (guandu), antes que as mesmas atinjam o estágio de pupa, podendo para isso utilizar um inseticida biológico efetivo como o Bacillus Thuringiensis.  que apresenta seletividade aos inimigos naturais da praga.

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Tipos de culturas

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[toggle title=”Cristais viáveis de Bacillus Thuringiensis”]

Bacillus Thuringiensis é uma bactéria da família Bacillaceae, sendo a cepa mais efetiva para o controle das lagartas Bacillus Thuringiensis kurstaki.

O princípio ativo dos inseticidas a base de Bacillus Thuringiensis são os cristais que a bactéria forma. Cada célula bacteriana forma somente um esporo e um cristal no final do processo.

Ciclo biológico de BTEsporo e Cristal

  • Modo de ação

No aparelho digestivo o cristal encontra condição ideal (pH > 12) para ser dissolvido e absorvido, transformando-se em substância tóxica para a lagarta (veneno). Uma parte do cristal absorvido atua imediatamente no sistema nervoso central. O inseto pára de se alimentar em no máximo 5 minutos.

lagarta atacada
Lagarta atacada pelo Bacillus Thuringiensis

Num segundo momento, o cristal ataca e destrói a parede do tubo digestivo, permitindo o extravasamento do líquido digestivo para dentro do corpo do inseto, levando consigo bactérias, provocando uma infecção generalizada matando a lagarta.

lagarta morta
Lagarta morta pelo Bacillus Thuringiensis
  • Resistência

Os insetos não desenvolvem tanta resistência aos inseticidas biológicos quanto aos químicos.  Os defensivos biológicos são formulados a partir de vírus, fungos e bactérias causadoras de doenças ou distúrbios em insetos.  Como os insetos não possuem sistema imunológico desenvolvido, é mais difícil o aparecimento de insetos resistentes nas gerações seguintes.

  • Seletividade do produto aos inimigos naturais

A utilização conjunta de Bacillus thuringiensis  com outros inimigos naturais é uma forma de incrementar o manejo da praga. Trichogramma spp é reconhecido pela sua viabilidade e eficiência e, pode ser utilizado conjuntamente com B.  thuringiensis.

  • Compatibilidade

O inseticida é compatível com a maioria dos defensivos químicos e outras substâncias normalmente empregadas na agricultura, sendo inclusive recomendada a sua aplicação em conjunto com outros defensivos, pois aumenta significativamente a eficiência dos mesmos. O produto é incompatível com substâncias extremamente alcalinas ou ácidas.

  • Efeito Residual, subdosagem e intervalo de segurança

Seu efeito residual varia entre 7 dias a 45 dias, sendo a média de 20 dias. Os esporos e cristais contidos dos inseticidas a base de Bacillus Thuringiensis  são recobertos por protetores contra os raios ultravioletas, aumentando desta forma sua eficiência e durabilidade.

Em casos onde possa haver a ingestão de pequenas quantidades de produto (sub-dosagem),  pode ser insuficiente para causar a morte mas suficiente para determinar grandes alterações metabólicas e funcionais diversas nos insetos, tornando-os alvos fáceis para outros predadores. Os insetos ficarão pré-dispostos a outras doenças, terão maior sensibilidade aos fatores climáticos (vento, frio, chuvas e luz) e  acontecerão um empupamento precoce.

Os inseticidas a base de cristais viáveis de Bacillus Thuringiensis não tem período de carência, podendo ser aplicado até o dia da colheita.

  • Aplicação
  • É recomendável a adição de óleo vegetal emulsionável ou espalhantes adesivos.
  • Não aplicar em horas de sol forte. Dê preferência para realizar a pulverização ao entardecer.
  • Em dias nublados ou de chuva fina, poderá ser aplicado a qualquer hora do dia.
  • Não aplicar em dias de chuvas fortes ou prenúncio das mesmas.[/toggle]

[toggle title=”Trichogramma spp”]

O principal agente de controle biológico para liberação em nível de campo para o controle de ovos das espécies do complexo Helicoverpa é o Trichogramma, um inseto diminuto, porém com alta eficiência no controle das pragas.

Trichogramma spp. é um inseto microhimenóptero da família Trichogrammatidae, que se caracteriza pelo tamanho diminuto e por parasitar ovos de inúmeras espécies de praga da ordem Lepidoptera.

As fêmeas de Trichogramma colocam seus ovos no interior dos ovos de Helicoverpa e ao invés de eclodir uma lagarta, emerge um adulto da vespinha.  Para se obter êxito no controle é necessário que a liberação da vespinha seja feita  quando houver ovos da praga no campo. Caso contrário o Trichogramma não encontrará o seu hospedeiro e a liberação não controlará a praga. Além disso, é necessário que a liberação seja feita logo após a emergência dos adultos, pois sua longevidade é de cerca de cinco dias em condições de campo.

Ciclo de vida
Ciclo de vida Trichogramma

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